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Aborto espontâneo

29 nov

Eu já sofri um aborto espontâneo.

Acho que essa frase é a melhor colocação possível para qualquer mulher que passou por isso. “Sofri”.

Eu e meu marido planejamos engravidar desde quando namorávamos. O meu marido já é pai, tem uma filha de 5 anos de um casamento anterior, mas desde sempre expressa a vontade de ter outro filho. A vontade e o medo, pois eu imagino o quanto é doloroso passar por uma separação, ainda mais quando se tem filhos. Eu quero ser mãe desde sempre. Casamos em meio a uma correria danada, sem tempo nem dinheiro para realizar esse sonho. Eis que a situação melhorou, o relógio biológico apitou (isso mesmo, apitou aos 20 anos de idade) e a vontade veio com toda a força. Nos planejamos. Fui à Ginecologista, tomei as vacinas necessárias, fiz todos os exames… Esse processo de vacinação já toma uns 3 meses, aproximadamente. Eu precisei fazer uma cauterização de colo de útero, e como o pós-procedimento é ficar um mês sem sexo, achamos uma boa oportunidade para parar de tomar anticoncepcional. Planejamos usar camisinha por mais 4 meses, enquanto tomava o ácido fólico e depois começar a tentar efetivamente. Eis que, 3 dias antes da cauterização, a camisinha foi “esquecida”. Fiz a cauterização e continuei na vida normal. Até que um dia, eu percebo que a minha fome era algo impressionante… Resolvo fazer as contas, mas não me lembro da data da última menstruação. Isso foi no final de semana. Por sorte, na quinta-feira, eu tinha uma consulta no endocrinologista (estava fazendo o meu check-up pré-gestação) e aproveitei para pedir um exame B-HCG, e já fiz no mesmo dia. No dia seguinte, de manhã, entro na internet e vejo o meu exame: Positivo!

Um pouco antes da hora planejada, eu estava sem convênio. Mas a felicidade tomou conta. Fui comprar uma roupinha de bebê, como forma de contar ao meu marido a novidade. Ele ficou super emocionado, e também preocupado. Um parto particular custa em torno de R$ 10.000,00… dinheiro que, digamos, não estava disponível. Foi uma preocupação e tanto… começamos a correr atrás de maneiras de driblar a falta de convênio, ou oque faríamos para juntar esse dinheiro. A preocupação tomou conta, mas estavamos curtindo muito a gravidez… muito felizes! Conseguimos finalmente resolver o problema do convênio. Ufa! Agora poderíamos curtir a gravidez tranquilamente. Todos os familiares foram informados e ficaram muito felizes com a notícia, uma delícia.

Eis que, eu começo a sentir uma cólica. Mas, “Dr. Google” me disse que não era nada demais, que poderia ficar tranquila. Dois dias depois, desce um pouco de sangue e “Dr. Google” mais uma vez me diz que “um pouco” de sangue é comum nessa fase. Até que eu começo a menstruar. Dessa vez, “Dr. Google” não tinha explicações e fomos correndo pro hospital. Estava com 8 semanas de gestação… Fomos fazer o USG, mas não ouvimos o coração. Dava para ver o saco aminiótico, mas nenhum feto ou embrião. Ainda havia esperança, pouca. Repouso total. Depois de dois dias menstruando, e sentindo cólicas, fui à consulta na Ginecologista. É, realmente, era um aborto. Diagnóstico: Gestação Anembrionada. Basicamente, houve a fecundação, mas por algum motivo, o embrião não foi pra frente, não se desenvolveu.

Eu tenho a sorte de ser uma pessoa super bem resolvida, e sempre procurar o “lado bom” nas coisas. “Ah, pelo menos nunca houve um embrião, né? Não foi a morte de um filho, foi praticamente uma ilusão”. E aí é a hora de dar a notícia a um ou dois familiares e esperar que a notícia se espalhe, sem que você tenha que contá-la pra mais ninguém. E a hora também de perceber que você, além de tudo, está passando por uma “situação-tabu”. Ninguém fala com você sobre isso… e eu entendo! Na realidade, ninguém sabe oque falar. E eu, particularmente, acho melhor que não falem nada mesmo. Um abraço vale mais.

Eu passei os primeiros dias mal, e pra ajudar, era semana de provas na faculdade. Nem sei como passei aquele semestre sem DPs, pois eu não abri um caderno que fosse para estudar. Depois, superei. Superamos. Por vezes a dor voltava, mas ia embora de novo. Tinhamos claro que dali a pouco, estaríamos lá, “grávidos” de novo. Acho que se eu soubesse que demoraria um ano e meio (ou mais) para eu engravidar novamente, teria sofrido bem mais.

Ficamos um tempo só usando camisinha, mas sem tentar. Eu acho que, quando a gente passa por uma situação dessas, tem que deixar as coisas acalmarem e ficarem bem resolvidas na cabeça e no coração. Do contrário, a angústia é muito maior.

Esse assunto, agora, é praticamente superado aqui em casa. Exceto quando vejo vídeos, leio textos e coisas relacionadas a aborto. Aí volta tudo. Mas oque mais me marcou em toda essa experiência é o fato de que, “uma vez mãe, sempre mãe.” E não adianta, eu sou mãe. A partir do momento que eu engravidei, eu me tornei mãe, e não é um aborto que vai tirar a maternidade de mim. Por vezes, seria melhor que ela fosse embora junto, mas ela ficou por aqui. Então, que fique!

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