Arquivo | novembro, 2012

37 semanas.

5 nov

Filha,

Hoje nós completamos 37 semanas juntinhas, coladinhas, em um mesmo corpo. Impossível não pensar em todas essas semanas e em quanta felicidade você já me proporcionou. Antes de ser concebida, você já era muito esperada e muito amada, mas essas 37 semanas me fizeram perceber o quão forte é esse sentimento, essa ligação entre nós.

Está chegando a hora de sair, de conhecer o mundo, de sentir novos cheiros, novas sensações, novos sabores. Não será fácil, eu sei. Mas eu prometo estar ao seu lado o tempo todo, a cada movimento, a cada etapa. Até agora, você foi muito legal com a mamãe. Você virou, encaixou cedinho, cresceu bonitinho, mexeu todos os dias e deixou a mamãe bem tranquila. Agora, é a minha vez de retribuir tudo isso.

Filha, venha quando quiser. Venha quando estiver pronta, quando for melhor pra você. Essa decisão é sua, esse momento é seu. Venha em paz. A mamãe está ansiosa sim, mas não ligue para isso. Com o tempo você vai perceber que eu sou ansiosa sempre. Então, sinta-se a vontade! Aproveite o quanto tempo quiser aqui dentro, e vá se preparando, tranquilamente, para o seu momento, para conhecer o mundo.

*Post originalmente escrito em 01/10/2012, quando completamos 37 semanas. Achei que tinha publicado, mas ficou em Rascunhos.

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Relato de Parto Natural

4 nov

Eu sempre quis um parto normal. Sempre achei que era o melhor para o bebê, mas nunca tinha pensado muito além disso. Quem acompanha o blog, acompanhou a minha busca pelo médico perfeito, e naquela altura, eu nem me preocupava com a via de parto, e também nem tinha conhecimento sobre a realidade obstétrica brasileira. Comecei a assistir alguns vídeos de parto, e acabava procurando no youtube por partos na água e dessa forma fui apresentada ao parto humanizado, bem diferente daqueles que vemos na televisão. Não lembro quem me adicionou, ou como fui parar em um grupo sobre parto natural no facebook. Lá conheci pessoas que lutavam pela humanização do parto e de intervenções baseadas em evidências científicas. E assim fui me informando e conhecendo mais sobre o assunto. Também comecei a ler muitos relatos de parto, assistir mais e mais vídeos de partos naturais, e aquilo sempre me emocionou demais. Eu achava muito interessante, pois a cada vídeo que eu assistia, a Ana Clara mexia na barriga. Era como se ela me dissesse “É isso mãe, eu também quero isso!”. Era como se estivéssemos juntas nessa jornada, desde o começo. E estávamos.

Continuei me empoderando, me informando e me emocionando. Decidi que teria um parto natural humanizado. Por isso, entendam: Sem anestesia e outras intervenções desnecessárias e, principalmente, baseado em muito respeito à mãe e a criança. Porém, percebi que não seria uma busca fácil. Logo entrei em contato com uma doula, e já começamos a nos comunicar. A idéia inicial era um parto hospitalar, com equipe humanizada. Porém, o valor ficou muito alto para o meu bolso e a doula me apresentou a Casa Ângela, uma casa de parto natural. Não vou entrar em muitos detalhes sobre a Casa Ângela, pois pretendo dedicar um post só pra ela, rs! Logo que a doula me falou da casa de parto, fui conhecer. Me apaixonei logo de cara e já comecei o pré-natal. Então estava tudo certo, meu parto seria natural, na Casa Ângela, como eu sempre sonhei. A partir daí, era continuar me empoderando e me preparando para lidar com a dor, com o parto e com todo o processo. Também precisei preparar meu marido e minha mãe, que participariam do parto. Foi mais fácil que eu pensei, pra ser sincera. Minha família aceitou numa boa e a partir da minha decisão, pude “descansar” a cabeça. Fiquei tranquila. Sabia que teria o parto dos meus sonhos, que eu, minha filha e minha família seríamos respeitados acima de tudo e que seria um parto com muito amor.

Continuei me informando, me preparando e me empoderando. Quando completei 37 semanas, tinha certeza que a Ana Clara viria logo. Pensava que no máximo, com 38 semanas ela chegaria. Os dias foram passando e alternando entre tranquilidade e ansiedade. Sentia algumas dores na lombar, algumas cólicas. No começo, qualquer sinalzinho, coliquinha ou dorzinha e eu já achava que entraria em trabalho de parto, mas lembro de alguém me mandar relaxar, pois se fosse trabalho de parto, eu saberia. Então relaxei. 38 semanas, 39, 40. Quando completei 40 semanas, comecei a ficar um pouco preocupada. Apesar de toda a questão de respeito pelo tempo da minha filha, eu queria que ela nascesse logo, pois na Casa Ângela só nos aceitariam até as 42 semanas. Então comecei a andar bastante, tomar chá de canela, rebolar e conversar com a Ana Clara, para que ela se preparasse e viesse. Explicava que ela não precisava ter medo, que eu estava ali. Expliquei como seria o nosso parto, que passaríamos por tudo aquilo juntas!

Na sexta-feira, dia 26/10, a noite, meu marido foi trabalhar e voltaria de madrugada. Brinquei com ele que deixasse o celular bem perto, pois eu poderia ligar a qualquer momento. Saí para passear no shopping e jantar com meus pais. Estava sentindo algumas dores na lombar, mais fortes que as comuns, mas nada que me alarmasse. Como eu tinha consulta na Casa Ângela no sábado, as 9h da manhã, meu pai brincou e disse para já levarmos as malas no carro. Meus pais me deixaram em casa e eu passeei com a minha cachorra, andei bastante, cerca de 40min. Voltei pra casa e fiquei no computador. Fiz um chá de canela. As dores na lombar aumentavam um pouco, então resolvi subir e descer 11 andares de escada aqui no meu prédio. Depois fiquei esperando meu marido chegar. Quando deu 2h30 fui ao banheiro, e meu tampão saiu. Me empolguei, mas sabia que ainda poderia demorar dias até o parto. Meu marido chegou 3h e já pedi para que ele fosse dormir. Fiquei na sala e tentei dormir um pouco, mas as dores na lombar estavam incomodando um pouco mais. Das 3h-5h as dores foram se intensificando e eu percebi que não eram simples dores na lombar, mas que talvez fossem as contrações. Comecei a reparar, e a barriga endurecia durante as dores, que ainda eram bem fracas e tranquilas, porém já vinham com duração de 30s e intervalos de 2, 3 minutos. Acordei meu marido, expliquei. Liguei pra doula e ela disse pra eu esperar em casa mesmo, pois as contrações ainda não estavam fortes. Como eu tinha consulta as 9h, combinei de ligar pra ela quando saísse da consulta. Falei novamente para o meu marido dormir, e deitei na sala, me cobri e liguei a TV.  Das 5h as 7h, as contrações ficaram bem mais intensas, eu rebolava, dava pulinhos, e me contorcia. Acordei meu marido, pra que ele tomasse banho, passeasse a cachorra e fossemos para a consulta. Liguei para a minha mãe, que ia me levar na consulta, avisei e combinamos de nos encontrar já na Casa Ângela. Chegamos lá 8h40. O intervalo das contrações era bem curto, e já estavam bem mais intensas.

Ouvimos o coração da Ana Clara e fizemos um exame de toque. Eu estava morrendo de medo da parteira dizer “Ah, isso não é trabalho de parto, volta pra casa!”, mas deram 4cm de dilatação e ela já me levou pra sala de parto, aonde fizemos o cardiotoco. Estava tudo bem comigo e com a minha pequena. Liguei pra doula, e disse que eu estava bem. Com contrações, mas bem, que ela viesse com calma. Avisei a fotógrafa. Passei um bom tempo deitada na cama.

As contrações foram ficando mais intensas e eu gostava de abraçar meu marido ou minha mãe durante elas. Era como se me concentrasse no abraço, e não nas contrações. Também era muito bom receber massagens na lombar, tinha o mesmo efeito, pois eu me concentrava na massagem e no relaxamento. Sempre me ofereciam comida e água. Eu aceitava a água, e de comida, apenas mamão. Encanei com o mamão. Tinha um relógio na sala de parto, que eu pensei que me atrapalharia, mas foi ótimo! Cada vez que eu olhava tinha passado pelo menos 30min. O tempo voou. A parteira vinha ouvir o coração da Ana e a enfermeira media minha temperatura e pressão constantemente. Acredito que de hora em hora. A doula chegou.  Até então eu não tinha caminhado, usado a bola, banheira, nem nada. Estava apenas deitada na cama. Levantava, fazia xixi e voltava pra cama. Eu sabia que era melhor me exercitar e procurar outras posições, mas estava muito confortável deitada. Almocei uma sopa e vomitei alguns minutos depois. Por volta das 14h, fizemos mais um exame de toque, 6cm. A bolsa estourou durante o exame. Eu fiquei meio irritada na hora, achando que a parteira tinha estourado de propósito, mas meu marido perguntou pra ela e ela disse que não, que precisaria de um instrumento para isso. A parteira e a doula sugeriram que eu tomasse um banho quente, e usasse a bola. Então eu sentei na bola, segurei em uma barra de apoio e fiquei rebolando, enquanto a água quente caía nas minhas costas.

Eu me concentrava bastante e ficava quieta durante as contrações, apenas rebolando e me contorcendo. Meu marido entrou no banheiro comigo e começamos a cantar juntos. Foi lindo. As músicas me ajudavam a me concentrar, focava na letra e deixava a contração passar, enquanto cantava, provavelmente mais desafinada que o normal. Depois de uma hora, sugeriram que eu saísse. Voltei para o quarto e deitei na cama.  Lembro de tentar o cavalinho, mas não gostei. Queria deitar mesmo.Meu pai chegou mais ou menos nesse momento, e lembro de ter ficado feliz com a presença dele. Ele não ficou o tempo todo na sala, mas entrava bastante para ver como estávamos. Lembro de gritar durante cada contração e me contorcer bastante. A doula, meu marido e minha mãe se revezavam com massagem nas minhas costas, abraços e apertos nas mãos. Depois encheram a banheira. E lá eu relaxei. Não sei quanto tempo passei na banheira, sei que foi bastante.

Eu dormia entre cada contração. Comi mais mamão. Depois a parteira pediu pra que eu saísse da banheira, pois as contrações tinham diminuído de ritmo e intensidade. Acho que a partir daí, peguei uma certa raiva da parteira. Coitada. Não deixava ela fazer exame de toque, odiava que ela ouvisse o coração da Ana. Não sei se ela percebeu isso, pois acabei guardando o sentimento, mas era uma relação de amor e ódio com ela, pois ao mesmo tempo que confiava e gostava dela, não queria mais nenhum exame, só queria ficar quieta me contorcendo no meu canto. Depois de sair da banheira, dei uma desanimada. Lembro da doula me dizendo para não desanimar, que eu estava indo bem, e pra me soltar mais. Caminhei um pouco com a minha mãe, com o meu marido. Acho que houve mais um exame de toque, com 7cm de dilatação, mas não sei precisar o momento desse exame. Já estava ficando noite e eu já estava ficando cansada.

A cada contração, eu pensava: “Dói. Muito. Mas dá pra aguentar!” Entre as contrações, conversava, dava risada e mais pro final, me concentrava, ficava mais quieta. No intervalo das contrações, eu ficava tranquila, gostava de conversar, rir, dormir, andar, qualquer coisa… mas durante as contrações, eu queria silêncio. Não queria falar nada, queria apenas me concentrar na contração. Me ofereciam bastante água, mas eu não tinha sede. Acabava aceitando por insistência. O mesmo em relação ao banheiro. Fiquei entre uma posição e outra, até que me sugeriram sentar na banqueta de cócoras, amparada pelo meu marido. A parteira veio fazer mais um exame de toque e deu dilatação total.

A partir daí, era só fazer força e esperar a chegada da Ana Clara. Mas eu sentia que não tinha força. Não sei de onde surgia a força, e lembro de algumas vezes ter apenas fingido que fazia força. Chorei em alguns momentos, por saber que estava perto. De repente, a sala lotou. Tinha umas 10 pessoas na sala de parto, mas a minha impressão é que tinham 30. A doula me perguntou se podia filmar, eu concordei e pronto. Aquele movimento todo, as câmeras, era a hora! Minha filha estava chegando. Não sei de onde saíram as forças seguintes. Mas eu fazia toda força do mundo. Lembro que minha mãe sugeriu que eu começasse a chamar minha filha, e eu comecei. Conversei com ela, chamei ela algumas vezes. A doula ou uma enfermeira me abanavam durante os puxos, e eu tentava respirar entre as contrações. A parteira pediu a minha mão, para que eu sentisse o cabelinho, mas não quis, não sei porque. Na contração seguinte, ela ofereceu novamente, eu aceitei. E senti. Aquele cabelinho, todo melecado e macio ao mesmo tempo. Aí a força veio mesmo. Eu estava com um roupão e lembro exatamente da parteira dizer: “Vai nascer na próxima contração. Abre o roupão.” Tinha um nó no roupão e eu quase rasguei, mas meu marido e minha mãe tiraram. E aí eu já não sabia mais oque pensar. Não sabia se acreditava, se forçava, se deixava ela mais um pouco na barriga. rs! Eu estava cansada. Racionalmente, não tinha mais força. Mas nesse momento, veio toda a força do mundo. Eu empurrei e vi uma parte da cabeça dela pra fora. Mais uma força, e ela veio para o meu colo, para o meu peito.

Ana Clara nasceu, chorona e cheirosa. Aliás, muito cheirosa. Lembro de colocá-la bem pertinho do nariz e sentir seu cheiro, uma delícia. Lembro do cheiro até agora, apesar de não conseguir descrevê-lo. Ela ficou um tempo no meu colo, o meu marido cortou o cordão quando parou de pulsar. Todos choravam emocionados na sala. Eu não sabia se ria, se chorava, se conversava com ela, se gritava, se urrava, se ficava ali cheirando. Lembro de beijar meu marido, a minha mãe. De agradecer todo mundo, com lágrimas nos olhos. Depois pegaram ela pra vestir e deixar bem aquecida, tudo isso dentro da sala, ao meu lado. Pareciam quilômetros de distância, mas acho que era menos de um metro. Me deitaram na cama, colocaram ela novamente no meu colo, já vestidinha e mais quentinha. Depois a parteira precisou dar os pontos, e foi um momento horrível pra mim. Eu odeio agulhas e estava depositando a minha esperança em não ter laceração. Eu ainda estava meio irritada com a parteira, e não queria que ela fizesse nada em mim. Lembro que eu tremia muito. De cansaço e de medo dos pontos. Minha mãe me acalmou. Eu reclamei o tempo todo! Muito. É até engraçado, um incômodo minúsculo e eu reclamando horrores, sendo que durante as contrações, muito mais fortes e intensas, eu encarei numa boa. Aqueles pontos pareciam intermináveis. Eu estava bem, queria ir andando para o meu quarto com a minha filha. Parece que eu tomei uma injeção de energia e adrenalina e ficar ali deitada, tomando os pontos me incomodou demais. Mas logo passou, eu fui para o quarto na cadeira de rodas, com minha filha no colo. Ficamos no quarto um tempo, depois levaram ela para o berço térmico, pois ela nasceu com um pouco de desconforto respiratório. Ficou uns 30min e depois voltou para o quarto. E mamou.

O parto foi exatamente como eu sonhei. Livre. Eu imaginava um parto na água, mas sabia que na hora, tudo poderia acontecer e eu mesma me senti confortável em outra posição. Mas foi livre. Eu fiz praticamente tudo que tive vontade, minha filha manteve os batimentos cardíacos do começo ao final do trabalho de parto, inclusive durante as contrações. Tive a presença das pessoas mais importantes para mim, além de uma equipe que me respeitou acima de tudo. Vou esclarecer aqui: Apesar de ter odiado a parteira durante o parto, eu amei o trabalho dela. Poderia parir mais mil vezes com ela. Foi mesmo um sentimento durante o parto, como ela fazia os exames e isso exigia que eu ficasse parada, eu comecei a associar a chegada dela com o desconforto. Apenas isso. A equipe foi perfeita, não tenho nem palavras e não mudaria absolutamente nada, nem na escolha da equipe, nem nada. Estou completamente apaixonada pelo meu parto. Sentir a minha filha saindo de dentro de mim, pegar ela no colo, sentir o cheiro dela, foi uma experiência muito intensa. Aprendi muito sobre mim mesma, me conectei comigo mesma. É como se aflorasse um lado animal, fêmea, mamífera. Não ganhei apenas uma filha linda, mas também uma experiência inesquecível.

Gostaria de agradecer a todos que participaram, direta ou indiretamente. Aos que me apresentaram esse mundo, que discutiram comigo, que me informaram. Aos que participaram durante o meu pré-natal, durante o parto e pós-parto. Aos que acreditaram no meu parto, que mandaram boas energias, mesmo não estando presentes no momento do parto. Um agradecimento especial à equipe, que foi perfeita em todos os momentos. E o principal agradecimento, à minha família, que esteve ao meu lado durante a decisão, pré-natal e durante o parto, me apoiando e me dando forças.

Agora, vou curtir a minha filha um pouquinho. Depois volto para contar do pós-parto.

Equipe:

Acompanhantes: Mãe e Marido

Doula: Priscila Rezende

Fotógrafa: Flávia Mesquita

Parteira, enfermeira e outros anjos: Casa Ângela